Ghosting no BDSM
- Mestre LenHard

- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Conceito
No contexto das relações contemporâneas, ghosting é o ato de encerrar um vínculo de forma abrupta, cessando toda comunicação e evitando qualquer explicação. Quando isso ocorre dentro do BDSM, especialmente em relações D/s, o impacto tende a ser mais profundo. Não se trata apenas do fim de um relacionamento, mas da quebra súbita de uma estrutura baseada em confiança, acordos explícitos, papéis definidos e responsabilidade emocional.
No BDSM, o silêncio não é neutro. Ele comunica abandono.
Origem
A literatura psicológica internacional descreve o ghosting como uma forma moderna de rejeição social, intensificada pela comunicação digital. Estudos mostram que o desaparecimento sem explicação ativa mecanismos de dor emocional semelhantes aos da dor física, além de aumentar estados de ansiedade, ruminação e insegurança relacional.
Em dinâmicas D/s, isso se aprofunda. A troca de poder pressupõe negociação, clareza e cuidado, inclusive no encerramento. Conceitos como aftercare existem porque experiências intensas exigem contenção emocional posterior. Quando uma relação termina sem fechamento, ocorre uma falha ética: o vínculo é rompido sem o mínimo de sustentação psicológica.
Ghosting não é encerramento legítimo
É importante diferenciar ghosting de autopreservação. Encerrar uma relação de forma rápida para preservar a própria segurança, diante de abuso real ou risco concreto, não é ghosting. Ghosting ocorre quando o silêncio é usado para evitar responsabilidade emocional, não para proteger limites.
Como Aplicar
Ghosting no BDSM vs. relações baunilhas
Em relações baunilhas, o ghosting rompe expectativas afetivas e narrativas emocionais. Ainda assim, costuma haver maior autonomia identitária entre as partes.
No BDSM, além do vínculo afetivo, são interrompidos acordos conscientes, símbolos de pertencimento e expectativas de cuidado.
Relação Baunilha | Relação BDSM |
Fim sem explicação | Quebra de acordos explícitos |
Dor emocional | Dor emocional + ruptura simbólica |
Perda afetiva | Perda afetiva + impacto identitário |
Falta de fechamento | Falha ética relacional |
Por isso, a pessoa deixada pode vivenciar o que a psicologia chama de perda ambígua.
Não há confirmação clara do fim, nem espaço para elaborar o luto. O resultado frequente é confusão prolongada, queda de autoestima e dificuldade de reconstruir a própria narrativa.
Sinais comuns após o ghosting em D/s incluem ruminação constante, sensação de insuficiência, ansiedade relacional e medo de novos vínculos.
Responsabilidade não pertence à posição
Ghosting no BDSM não é exclusividade de dominantes. Submissos também podem abandonar sem fechamento. Poder, entrega ou título não definem caráter. Relações D/s saudáveis exigem responsabilidade emocional de todas as partes envolvidas.
O Lado Sombrio
O impacto do ghosting se intensifica quando a relação já estava atravessada por dependência emocional não trabalhada. Submissão não é fusão, nem desaparecimento do eu. Quando o vínculo se torna a única fonte de validação, o abandono tende a ser vivido como aniquilação.
Nem todo ghosting é intencionalmente abusivo, mas todo ghosting em BDSM revela uma falha de responsabilidade relacional. A ausência de explicação transfere o peso do encerramento para quem ficou, que passa a carregar sozinho a tarefa de dar sentido ao que aconteceu.
Silêncio não é maturidade; é ausência de coragem emocional.
Impacto Psicológico Profundo
Estudos internacionais sobre rejeição sem fechamento mostram que o ghosting ativa sistemas ligados à dor social, ansiedade e apego. Pessoas com apego ansioso tendem a internalizar o silêncio como culpa pessoal, buscando obsessivamente explicações. Já perfis de apego evitativo frequentemente minimizam o impacto externamente, mas apresentam bloqueios emocionais posteriores.
O cérebro humano busca coerência narrativa. Quando o vínculo termina sem explicação, ocorre um curto-circuito cognitivo: a história não fecha. Isso prolonga o luto, mantém a ativação emocional e dificulta a reorganização interna. O sofrimento não está apenas no fim, mas na impossibilidade de compreender o fim.
Impacto Identitário no BDSM
Em relações D/s, o ghosting não rompe apenas um laço afetivo; ele desmonta uma identidade relacional. Papéis assumidos, símbolos aceitos e rotinas incorporadas deixam de existir sem transição. A pessoa não perde apenas o outro, perde a versão de si que existia naquela dinâmica.
Isso explica por que muitos relatam sensação de vazio, desorientação e perda de pertencimento após o ghosting. A identidade construída em torno da troca de poder precisa ser reconstruída com autonomia. Submissão saudável nunca elimina o eu; quando isso acontece, o abandono se torna devastador.
O Equilíbrio
Lidar com o ghosting no BDSM exige reconstrução de autonomia interna.
O que ajuda:
Nomear o ocorrido sem suavizar. Não foi fraqueza; foi abandono sem fechamento.
Separar fatos de narrativas internas. O silêncio do outro não define seu valor.
Interromper a ruminação. Perguntas sem resposta mantêm vínculos ativos de forma dolorosa.
Restaurar limites, rotinas e símbolos pessoais.
Buscar suporte real, seja em amigos, terapia ou espaços seguros.
O que evitar:
implorar explicações indefinidamente;
reinterpretar negligência como culpa pessoal;
buscar novos vínculos para anestesiar a dor;
abandonar limites em troca de validação.
O Pós-Ghosting e as Relações Futuras
Sem elaboração adequada, o ghosting tende a contaminar vínculos seguintes. A pessoa pode se tornar hipervigilante, evitar entrega emocional ou repetir padrões de relações assimétricas. O medo de novo abandono pode gerar controle excessivo ou retraimento afetivo.
Por isso, o pós-ghosting exige pausa consciente antes de novas dinâmicas D/s. Revisar critérios, observar consistência entre discurso e ação, negociar encerramentos possíveis desde o início e respeitar sinais de fuga emocional são formas práticas de evitar repetição do trauma.
A psicologia chama esse processo de crescimento pós-traumático. A dor não desaparece, mas pode ser integrada sem definir quem você é.
Encerramento
Ghosting no BDSM não é apenas descortesia emocional. É a negação do cuidado mínimo que uma dinâmica de poder exige, inclusive no fim.
Recuperar-se do ghosting não é esquecer o outro; é retomar o governo de si.
O silêncio do outro não invalida o que foi vivido, nem determina o seu valor.
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