Comunidade BDSM: Promessa Vazia
- Mestre LenHard

- 15 de dez. de 2025
- 9 min de leitura

O PROBLEMA
A palavra comunidade vem sendo usada no meio social BDSM como um selo automático de virtude. Ela sugere segurança, ética, acolhimento e responsabilidade.
O problema é simples e direto: na maioria dos casos, isso não existe na prática.
Chama-se de comunidade algo que não cumpre os requisitos mínimos para ser chamado assim. O resultado é previsível: frustração, abuso normalizado e pessoas tentando encontrar apoio onde só existe conveniência social.
Quando o nome mente, o dano não é pequeno. Ele é estrutural.
Em espaços onde o discurso promete cuidado, mas a prática entrega confusão, muitos acabam buscando referências mais sólidas. Estruturas que valorizam clareza, responsabilidade individual e estética consciente não surgem do acaso. Elas são construídas com critério, tempo e escolhas difíceis, como tudo que pretende durar.
A ORIGEM
O uso do termo “comunidade BDSM” nasce de uma mistura mal resolvida entre conceitos sociológicos, discurso ativista e necessidades emocionais básicas não elaboradas. O nome veio antes da estrutura. Não surgiu de uma estrutura real, mas de uma soma de fatores humanos comuns.
O primeiro deles é o desejo de pertencimento. Todo ser humano quer fazer parte de algo. No meio BDSM, isso faz muita gente aceitar regras tortas, silêncios estranhos e comportamentos questionáveis apenas para não perder o grupo. A lógica interna costuma ser simples: melhor estar dentro, mesmo desconfortável, do que ficar de fora.
Somado a isso, aparece a carência afetiva. Pessoas emocionalmente vazias tendem a confundir atenção com cuidado, interesse sexual com afeto, autoridade com proteção. Nesse estado, aceita-se quase qualquer coisa desde que haja algum tipo de reconhecimento. A carência não busca segurança; busca presença.
Outro motor poderoso é a busca por validação. Muitos precisam que o grupo confirme constantemente que são válidos, desejáveis ou “bons praticantes”. No meio social BDSM, isso se traduz em medir valor por convites, seguidores, menções públicas e defesa coletiva. Quando a validação vem de fora, o silêncio do grupo vira punição psicológica.
O medo de isolamento completa o quadro. Não se trata apenas de ficar sozinho, mas de perder acesso, rede, eventos e oportunidades. Esse medo paralisa denúncias, sustenta silêncios cúmplices e faz pessoas defenderem o indefensável. A frase não dita, mas sentida, é sempre a mesma: se eu falar, serei o próximo a ser excluído.
Por fim, entra o marketing social. Discursos sobre ética, segurança e inclusão passam a ser usados como propaganda. O grupo se vende como seguro, moderno e consciente, mas apenas na vitrine. Nos bastidores, problemas são abafados, abusos relativizados e danos minimizados para preservar imagem e capital social. É ética performática. Serve para atrair gente, não para protegê-la.
O rótulo veio antes da responsabilidade. O nome foi adotado antes da estrutura.
Também é aqui que nasce outra ilusão perigosa: a ideia de uma Grande Comunidade Global BDSM ou de uma Comunidade Nacional Brasileira BDSM.
Essas entidades, na prática, não existem. O que existe são redes soltas, eventos pontuais, grupos regionais e pessoas conectadas por interesse comum, não por pacto ético unificado.
Uma comunidade global exigiria valores universais claros, mecanismos de responsabilização transnacionais e coerência ética entre culturas diferentes. Nada disso está estruturado. O termo é usado mais como identidade simbólica do que como realidade funcional.
O mesmo vale para a suposta comunidade nacional. O território brasileiro não abriga uma comunidade BDSM coesa, organizada e eticamente integrada. O que há são múltiplos meios sociais fragmentados, muitas vezes em conflito entre si, cada um operando com regras próprias, quando operam com alguma regra.
Falar em comunidade global ou nacional serve mais para criar sensação de pertencimento do que para descrever algo real.
POR QUÊ?
Nem toda falha estrutural nasce de má-fé. Muitas começam por ignorância, imaturidade ou incapacidade de lidar com conflito.
O problema é que toda falha mantida, defendida ou silenciada deixa de ser acidente e passa a ser escolha.
Porque comunidade exige custo, e quase ninguém está disposto a pagar esse preço.
Uma comunidade real exige confrontar abusadores populares, romper alianças, expulsar pessoas influentes, sustentar decisões impopulares e perder status. No meio social BDSM, muitas vezes prefere-se o conforto do silêncio à dor da coerência.
O QUE É, DE FATO, UMA COMUNIDADE
Os pilares reais
Sem romantização e sem desculpas.
Uma comunidade real precisa, obrigatoriamente, de valores claros e públicos. Todos sabem o que é aceitável e o que não é, e isso não muda conforme a pessoa envolvida.
Precisa de responsabilidade coletiva. Quando alguém causa dano, a comunidade responde. Não terceiriza, não finge que não viu.
Precisa de proteção ativa aos vulneráveis. Iniciantes não são jogados aos lobos e vítimas não são silenciadas para “evitar confusão”.
Precisa de mecanismos de correção. Advertência, afastamento e expulsão fazem parte de qualquer estrutura ética funcional.
E, acima de tudo, precisa de coerência entre discurso e prática. Quem fala de ética vive ética. Quem fala de segurança pratica segurança.
Sem esses pontos, não existe comunidade. Existe apenas um grupo usando um nome que não sustenta.
É justamente por isso que alguns projetos optam por não se autodenominarem comunidade, mesmo quando promovem trocas profundas, educação séria e vínculos baseados em ética. Preferem entregar estrutura e coerência antes de rótulos.
ENTÃO, O QUE O BDSM É NA PRÁTICA?
Sendo adulto e honesto, o BDSM funciona majoritariamente como um meio social ou, no máximo, como uma sociedade informal de interesses compartilhados.
Isso não é um ataque. É uma definição correta.
Aceitar isso reduz ilusões perigosas e devolve a responsabilidade para onde ela sempre deveria estar: no indivíduo.
Aceitar que o BDSM opera majoritariamente como meio social não é cinismo. É maturidade emocional. É compreender que desejo compartilhado não cria ética automática e que responsabilidade não se terceiriza para um rótulo coletivo.
Não é coincidência que pessoas mais lúcidas passem a selecionar com cuidado os espaços que frequentam, os objetos que usam e as referências que consomem. Em meios onde a palavra vale pouco, símbolos, design e posicionamento passam a comunicar mais do que discursos vazios.
LIDERANÇA, VAIDADE E CONTROLE
Outro elemento recorrente nas falsas comunidades BDSM é a centralidade excessiva em uma figura de liderança.
Quando a existência do grupo serve mais para sustentar o ego, o status ou a relevância social de um líder do que para proteger pessoas, a ética já foi comprometida.
Lideranças emocionalmente dependentes do grupo não corrigem, não confrontam e não excluem. Elas negociam, relativizam e silenciam para não perder poder.
Nesses casos, a chamada comunidade não existe para servir aos seus membros. Os membros existem para alimentar a comunidade como vitrine pessoal.
Hierarquia, nesse cenário, vira apenas fantasia social. Sem prestação de contas, sem consequência real e sem limites claros, autoridade não passa de encenação.
A FALSA IDEIA DAS “PEQUENAS COMUNIDADES”
Costuma-se dizer que, mesmo que não exista uma grande comunidade global ou nacional, existiriam várias pequenas comunidades BDSM funcionando de forma saudável.
Isso é apenas parcialmente verdade.
Pequenas comunidades podem existir, mas são raras. E há um padrão curioso entre as poucas que realmente funcionam de forma ética.
Elas costumam ser discretas, pouco visíveis e deliberadamente fora dos holofotes. Não fazem propaganda constante da própria existência, não se vendem como referência moral e não usam a palavra comunidade como ferramenta de marketing.
Isso acontece por um motivo simples: estruturas éticas reais atraem conflitos, denúncias, tentativas de infiltração e pressão externa. Quanto maior a visibilidade, maior o risco de contaminação.
Por isso, as poucas comunidades que funcionam tendem a priorizar coesão interna, critérios rígidos e crescimento lento. Preferem ser pequenas, silenciosas e estáveis a grandes, famosas e vazias.
Grupos que se promovem demais como comunidade geralmente estão vendendo uma imagem, não sustentando uma estrutura.
MINI GUIA REALISTA
Como uma comunidade BDSM poderia existir de verdade
Primeiro, valores inegociáveis precisam ser definidos e tornados públicos. Consentimento, responsabilidade, ética e cuidado não podem ser apenas palavras bonitas.
Segundo, deve existir um núcleo ético funcional, composto por poucas pessoas escolhidas por histórico e coerência, não por popularidade.
Terceiro, protocolos de denúncia claros, acessíveis e com resposta real. Denúncia ignorada destrói qualquer tentativa de comunidade.
Quarto, consequências reais. Advertência sem ação é teatro.
Quinto, aceitação de perdas. Pessoas sairão, eventos encolherão e conflitos surgirão. Se isso não for aceitável, a ideia de comunidade deve ser abandonada.
AS PSEUDO-COMUNIDADES PAGAS
Antes de avançar, é preciso separar duas coisas que costumam ser confundidas de forma conveniente.
Uma coisa é o compartilhamento de custos operacionais. Aluguel de espaço, manutenção técnica, materiais ou logística podem ser divididos entre participantes de forma transparente.
Outra coisa, completamente diferente, é cobrar pertencimento, acesso simbólico ou status social.
É nesse segundo caso que surgem as pseudo-comunidades pagas, normalmente materializadas em grupos fechados de WhatsApp, Telegram ou plataformas semelhantes, onde o pagamento não sustenta estrutura, mas compra aceitação.
Outro sintoma grave da distorção do conceito de comunidade é o surgimento das chamadas pseudo-comunidades pagas, normalmente materializadas em grupos fechados de WhatsApp, Telegram ou plataformas semelhantes, onde é exigido pagamento para pertencer. Aqui, a lógica comunitária já foi abandonada.
Isso viola o conceito básico de comunidade em sua raiz.
Uma comunidade não é um produto. Não é um clube VIP. Não é uma assinatura. Comunidade se sustenta por valores, responsabilidade e vínculo humano, não por mensalidade.
Quando o acesso a um grupo é condicionado a pagamento, o que se cria não é comunidade, mas serviço, network pago ou produto social. A relação deixa de ser ética e passa a ser comercial.
O problema central é que o dinheiro distorce completamente as relações internas. Quem paga se sente cliente. Quem cobra se sente fornecedor. E, nesse cenário, ética vira atendimento ao consumidor.
Isso gera consequências previsíveis.
Abusos tendem a ser relativizados para evitar cancelamento de assinaturas. Denúncias passam a ser vistas como ameaça financeira. Pessoas influentes são protegidas porque “trazem gente para o grupo”.
Além disso, a cobrança cria uma falsa sensação de legitimidade. Muitas pessoas acreditam que, se estão pagando, então o espaço deve ser seguro, organizado e ético. Essa associação é falsa e perigosa.
Pagamento não cria valores. Não cria cuidado. Não cria responsabilidade coletiva.
É importante fazer uma distinção clara para evitar distorções convenientes.
Educação paga, cursos, mentorias, eventos e grupos de estudo são legítimos. Eles oferecem conteúdo, experiência e troca estruturada.
O problema começa quando esses serviços passam a se autodenominar comunidade. Nesse ponto, ocorre uma confusão proposital entre aprendizado e pertencimento.
Comunidade não se compra. Se constrói.
Pagamento pode comprar acesso a conteúdo. Nunca vínculo ético.
No máximo, cria acesso.
COMO IDENTIFICAR A TOXICIDADE DE UMA “COMUNIDADE”
Alguns sinais são claros.
Proteção seletiva, onde certas pessoas nunca estão erradas.
Silêncio estratégico, disfarçado de maturidade, mas motivado por medo de perder status.
Gaslight coletivo, quando um grupo inteiro tenta convencer alguém de que o abuso não foi grave, que entendeu errado ou que está exagerando. Mesmo quando os fatos são claros. É apontar para o céu azul e insistir que ele é verde.
Moral flexível, onde regras mudam conforme quem erra.
E preocupação maior com imagem do que com pessoas. Quando a frase “isso pega mal para a comunidade” pesa mais do que a justiça, a estrutura já está corrompida.
Fechamento CIRÚRGICO
Chamar de comunidade algo que não protege, não corrige e não assume responsabilidade não é inocente. É perigoso.
Palavras criam expectativas. Expectativas criam confiança. Confiança mal colocada cria vítimas.
Toda estrutura que precisa mentir no nome já fracassou na prática.
AUTOAVALIAÇÃO DO LEITOR
Antes de procurar ou permanecer em qualquer espaço que se apresente como comunidade, é necessário um exercício mínimo de honestidade pessoal.
Este checklist não serve para julgar grupos. Serve para você se observar dentro deles.
Pergunte a si mesmo, sem romantização:
• Eu fico aqui por convicção ética ou por medo de perder acesso, status ou pessoas?
• Eu posso discordar abertamente sem sofrer retaliação social ou silenciamento?
• Quando algo errado acontece, existe resposta clara ou tudo é varrido para debaixo do tapete?
• As regras valem para todos ou apenas para quem não tem influência?
• Se eu sofresse um abuso hoje, eu me sentiria seguro para falar?
• Eu pertenço a este espaço ou apenas o consumo como produto social?
Se a maioria das respostas gerar desconforto, tensão ou justificativas internas, isso não é fraqueza sua.
Desconforto, nesse contexto, não é sinal de erro pessoal. É sinal de lucidez.
É sinal de que o ambiente não é saudável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
As distorções observadas no uso do termo “comunidade” não são exclusivas do meio social BDSM. Elas são amplamente estudadas pela sociologia, psicologia social e estudos organizacionais.
Diversos conceitos acadêmicos ajudam a compreender o que, no senso comum, costuma ser chamado de promessa vazia, gaslight coletivo, marketing social ou pseudo-comunidade.
O fenômeno conhecido como Groupthink (Irving Janis) descreve como grupos tendem a suprimir dissenso interno para manter uma aparência de consenso, mesmo quando decisões são claramente prejudiciais.
A noção de Moral Licensing explica como indivíduos ou grupos que se veem como “éticos” passam a justificar comportamentos questionáveis, acreditando que sua identidade moral os isenta de crítica.
O conceito de Symbolic Community aborda grupos que existem mais como identidade simbólica do que como estrutura funcional real, oferecendo pertencimento narrativo sem responsabilidade concreta.
Já a ideia de Institutional Betrayal trata do dano causado quando uma estrutura que promete proteção falha deliberadamente em agir diante de abusos, priorizando autopreservação.
Por fim, Social Identity Threat explica por que membros silenciam denúncias ou distorcem fatos quando a imagem do grupo ao qual pertencem é ameaçada.
Referências utilizadas:
• Janis, I. L. (1972). Victims of Groupthink. Houghton Mifflin. https://psycnet.apa.org/record/1973-08019-000
• Merritt, A. C., Effron, D. A., & Monin, B. (2010). Moral Self-Licensing. Psychological Science. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0956797610368802
• Cohen, A. P. (1985). The Symbolic Construction of Community. Routledge. https://www.routledge.com/The-Symbolic-Construction-of-Community/Cohen/p/book/9780415055290
• Smith, C. P., & Freyd, J. J. (2014). Institutional Betrayal. American Psychologist. https://psycnet.apa.org/record/2014-07714-001
• Branscombe, N. R., et al. (1999). Social Identity Threat. Journal of Personality and Social Psychology. https://psycnet.apa.org/record/1999-10179-002
SOLUÇÃO
Use os nomes corretos. Meio social, rede, grupo.
E só use a palavra comunidade quando estiver disposto a pagar o preço que ela cobra.
Comunidade não é quem compartilha desejo. Comunidade é quem assume responsabilidade.
Depois de desmontar ilusões e nomes vazios, resta escolher referências que sustentem o que dizem.
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