Ser e Estar: a diferença crucial no BDSM real
- Mestre LenHard

- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Existe uma diferença essencial entre ser e estar dentro dos papéis do Jogo BDSM. Essa distinção não vale apenas para submissas. Ela se aplica a todos os papéis do Jogo BDSM, sem exceção: dominadores e dominadoras, submissos e submissas, switches, tops, bottoms, homens, mulheres, pessoas trans e não binárias. Qualquer pessoa que participe de dinâmicas de poder está incluída nesse princípio.
Ignorar isso não é detalhe teórico. É risco real.
O PROBLEMA
Quando papéis do jogo são tratados como identidade fixa, o BDSM deixa de ser prática consensual e vira personagem permanente. A fantasia escorre para a vida cotidiana sem freio, sem acordo e sem responsabilidade.
É assim que surgem abusos disfarçados de estilo de vida, autoritarismo vendido como dominância e dependência emocional chamada de entrega.
A ORIGEM
O BDSM nasce do acordo consciente e do contexto delimitado. Papéis existem para estruturar o jogo, não para definir o valor humano de alguém.
Com o tempo, parte do meio passou a confundir posição no jogo com essência pessoal. Isso simplifica relações complexas e beneficia quem quer poder contínuo sem precisar negociá-lo.
Mas papel não é caráter.
SER NO PAPEL
Dizer que alguém é dominante, é submisso, é sádico ou é masoquista como estado permanente cria expectativas perigosas.
Para quem domina, isso pode virar licença para controlar fora de cena, impor decisões unilaterais e silenciar questionamentos.
Para quem submete, pode virar obrigação de ceder sempre, tolerar desconfortos e aceitar violações como se fossem traço pessoal.
Quando o papel vira identidade absoluta, o jogo nunca termina.
ESTAR NO PAPEL
Estar em um papel significa assumir uma função dentro de um contexto específico.
Estar dominante.
Estar submisso.
Estar top.
Estar bottom.
Tudo isso pressupõe:
Acordo explícito.
Limites definidos.
Duração clara.
Possibilidade real de encerrar.
Fora desse contexto, a pessoa volta a ser apenas isso: pessoa.
O poder existe no jogo, não como direito natural.
FANTASIA ≠ REALIDADE
Fantasia é território simbólico. Ela exagera, dramatiza e encena extremos.
Realidade exige responsabilidade, empatia e ética.
Quando alguém confunde fantasia com realidade, surgem frases como:
"Eu sou assim."
"Sempre fui dominante."
"Você é submissa, então aguenta."
Isso não é BDSM. É desculpa.
O PERIGO
Papéis fixados como identidade atraem três tipos de problemas.
O primeiro são pessoas que usam o discurso do BDSM para legitimar comportamentos abusivos, escorando controle, manipulação ou violência na fantasia.
O segundo são pessoas que se anulam tentando corresponder a um personagem que nunca foi feito para existir vinte e quatro horas por dia.
O terceiro é mais silencioso e igualmente nocivo: pessoas que se atribuem o papel de bottom ou submisso e passam a usá-lo como escudo moral. Apresentam-se como isentas de culpa, como se submissão fosse sinônimo de pureza, passividade ou santidade emocional.
Nesse cenário, o jogo vira manipulação afetiva. Erros nunca são assumidos, conflitos nunca são responsabilidade mútua, e qualquer limite imposto pelo outro é tratado como abuso.
Submissão não elimina agência. Bottom não é sinônimo de inocência.
O resultado é o mesmo: desgaste emocional, confusão de limites e relações adoecidas.
SINAIS DE ALERTA (CHECKLIST RÁPIDO)
Ausência de negociação prévia.
Recusa em discutir limites ou safewords.
Pressão para viver o papel fora do combinado.
Isolamento do parceiro ou conivência social para encobrir abusos.
Repetidas explicações que culpabilizam a vítima por "não entender o jogo".
Se mais de um item aparecer, repense a relação.
CIRÚRGICO
No BDSM ético, ninguém é poder o tempo todo.
O poder é concedido, negociado e devolvido.
Quem se diz dominante em essência, sem contexto e sem acordo, não quer jogar. Quer mandar.
Quem exige submissão constante não busca entrega. Busca controle.
O TRABALHO PRÁTICO
Antes de aceitar um papel, faça um protocolo curto:
Defina o papel e o contexto (quando e onde é o jogo).
Liste três limites absolutos e três experimentais.
Combine safewords e sinais não-verbais.
Planeje aftercare e verifique disponibilidade emocional do parceiro.
Marque uma revisão — um encontro de checagem após 24–72 horas.
Isso transforma fantasia em prática segura.
SOLUÇÃO
Troque afirmações por perguntas claras:
"Em que contexto estou nesse papel?"
"Com quem?"
"Quais são os limites?"
"Quando começa e quando termina?"
Se não há resposta, não há jogo. Há risco.
Dica do Mestre
Papéis são ferramentas do jogo, não definição de caráter.
Quem confunde fantasia com realidade não erra por ingenuidade.
Erra por conveniência.
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